quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Um refúgio na cidade grande

Peça encenada em Bauru aborda o drama dos expatriados

Por Anne Santos, Júlia Paschoalino e Kevin Kamada


            De acordo com a ONU,  até o final de 2016, mais de 65 milhões de pessoas fugiram de seus países de origem por conta das guerras e más condições de vida, em direção a países distantes. Esse, é o tema da peça São Paulo Refúgio, apresentada no SESC Bauru no dia 13 de julho. Procurando dar voz aos refugiados e interagindo com a plateia, o elenco composto por quatro pessoas, sendo uma delas um imigrante do Congo, dá ênfase às dificuldades enfrentadas por essas pessoas para conseguir conseguir refazer suas vidas na metrópole brasileira. Conversamos com os atores Conrado Dess, Elise Garcia, Ériko Carvalho e Tresor Muteba, para entender melhor a importância da arte teatral na conscientização da sociedade.




Campo de refugiados de Yarmouk, na Síria. (Foto: Rami Al Sayyed/UNRWA)

Como foi o processo para conceber essa peça?



Conrado: Foi no final de 2014 que a gente começou o processo de criação do espetáculo. Acho que primeiro surgiu a ideia de falar sobre os refugiados,  porque o tema estava começando a aparecer em São Paulo e não estava tão na mídia como hoje. O processo durou um ano e pouco e teve várias atividades: a gente conversou com algumas Ongs, para conhecer e participar e uma parte desse processo foi feita numa ocupação de refugiados no Centro de São Paulo. Durante esse um ano, a gente ficou bastante inserido nesses grupos de refugiados, com os sírios da mesquita, com os africanos e haitianos no centro. A partir desses encontros e da participação nas atividades, a gente foi criando e ensaiando a peça. Então, a peça surgiu da prática e do contato que a gente teve nesse processo.



Elise: A princípio, a gente não sabia muito bem que rumo tomar, pois não conhecíamos muito o assunto. A peça é o que a gente ouviu deles, dessa vivência, de conversar e entrevistar. Depois de conhecermos o geral, surgiu essa abordagem mais São Paulo.



Ériko: A gente conversou bastante, tentou se aproximar de uma forma bem humana, não só pegar informação para fazer uma peça, mas estar junto mesmo. Desenvolvemos várias atividades com eles: oficinas, jantares, festas e a gente chegou até a produzir eventos para as bandas deles tocarem. Então foi uma participação bem ativa.



Qual impacto vocês pretendem causar com essa peça?



Tresor: São Paulo, por ser uma cidade grande e cosmopolita, é um lugar em que chegam muitos imigrantes e refugiados. Todos quando chegam, seja pelo Acre ou por qualquer outra fronteira, tentam ir para São Paulo, pois é lá que se ganha dinheiro, como se fosse uma sede. Como o Conrado falou, há vários estabelecimentos que tentam cuidar dos refugiados, mas às vezes esse “cuidar” em si é um problema.


Eu, no caso, sou imigrante e viajei para estudar aqui, mas os refugiados têm o problema de lugar para ficar, enfrentam dificuldades. Alguns ficam em albergues, mas muitos não são adequados para quem quer se estabelecer. Outros, acabam ficando em ocupações como a do Cambridge, para onde fomos durante o processo criativo. Então, essas pessoas estão vivendo meio à margem da sociedade e é uma coisa que também tem a ver com a política brasileira. “O Brasil está acolhendo mas como é esse acolhimento?” Na peça, a gente tenta responder isso. Como é esse acolhimento? Quais são as falhas? Quais são os problemas que acontecem no aeroporto? Muitas coisas são gritantes e a peça tenta conscientizar e mostrar isso.




É possível dizer que vocês pretendem fazer uma crítica social?



Conrado: Eu não penso assim. Não penso na reação que eu quero do público, nem no que quero dizer com a peça. Acho que a preocupação é com o lado dos refugiados, com o que eles querem que seja falado por diversas razões. Se isso se concretiza em uma crítica social no espetáculo como um todo, é uma consequência. Mas a nossa intenção não foi ir pelo viés: “Vamos fazer um espetáculo que seja uma crítica social.”



Ériko: É uma coisa mais dar voz à eles, para que eles sejam ouvidos, sejam reconhecidos e legitimados no espaço que eles estão inseridos, por diversos motivos. É mais um retrato mesmo. A gente foi colhendo as informações e talvez o que tenha ficado seja uma essência do que eles querem dizer, de como eles precisam ser vistos.


A atriz Elise Garcia em cena de São Paulo Refúgio. (Foto: Vitor Manon/Performatron)


Qual o papel do teatro na educação, na conscientização das pessoas?



Tresor: Muitas pessoas, quando assistem à nossa peça, falam: “Nossa, não sabia do espaço conector que existe em São Paulo, no Aeroporto Internacional de Guarulhos”. É um lugar que recebe refugiados, que às vezes passam por uma série de problemas. Eu, pessoalmente, não cheguei a ver esse lugar, mas já conversei com uma pessoa que fui buscar no aeroporto. Nossa, a pessoa era mais velha, mas ela quase chorava, e dizia: “ Nossa eu to num lugar aqui, eles tão querendo vir me pegar, faz alguma coisa para eles não me pegarem”. Eu vi que a pessoa estava desesperada, que precisava de um advogado, de uma pessoa que lhe desse segurança. E a peça mostra isso, esse conector, como as pessoas são tratadas, como os direitos humanos são boicotados. Em linguagem diferente, mas que fala da realidade, o teatro analisa a realidade dos refugiados.



Conrado: Para gente que é artista, o teatro é a nossa forma de trabalhar, de se expressar. Mas é interessante, porque é muito forte a potência de ter pessoas fazendo no palco e pessoas sentadas na platéia, tudo acontecendo muito perto nessa sala. É diferente de outras obras de arte que precisam de uma mediação maior ou do cinema, que possui uma tela. A gente coloca o público em um lugar que é muito próximo, muito real. E acho que a peça São Paulo Refúgio coloca o público muito perto de um contato com o tema  que não tem em outro lugar, é quase nulo. O que as pessoas sabem de refúgio é geralmente uma reportagem, às vezes um filme, mas contato mesmo com a questão, acho difícil. Em São Paulo eu já acho difícil, aqui no interior deve ser mais ainda. Então, acredito que é uma oportunidade de estar em um espaço discutindo questões e vendo de um ponto de vista mais próximo e real. De uma forma geral, a linguagem teatral é potente por causa disso, porque envolve assim como no cinema, a imagem, som e palavras, mas dá um passo a mais que é a presença do ator.



Ériko: O teatro tem um ponto muito forte, principalmente quando ele é feito através de um processo de pesquisa longo, que é o fato desse processo ser muito transformador, não só para nós como artistas, mas de todo o território que estamos inseridos. Quando você se debruça sobre um tema, quando você vai atrás, se insere e tem contato com as pessoas, você vai criando possibilidades que vão transformando esse território. Isso faz a gente enxergar o potencial do trabalho dos artistas de teatro. As pessoas passam a ver no teatro uma forma de difundir o que têm de bom.




Peças como a de vocês, que retratam a realidade, são comuns no Brasil?



Conrado: Eu acho que tem até bastante. Eu não sei se é tão acessível... Geralmente, é uma questão de dinheiro, porque uma peça de entretenimento, que tem um ator da Globo, consegue muito mais patrocínio para viajar, teatros maiores... Então chega mais longe é mais acessível do que o teatro de pesquisa, digamos assim. Mas tem bastante no Brasil. Eu acho que o problema é esse mesmo: é falta de incentivo, de recursos, que permitam que esse tipo de teatro, que não vai dar lucro, ir para os mesmos lugares, ter a mesma visibilidade.



Ériko: Eu acho que a dificuldade maior é o acesso mesmo, porque tem muita gente batalhando, fazendo e pesquisando. É muito difícil. Geralmente quem consegue ver é quem tá buscando mesmo, quem vai atrás. “Nossa, eu quero muito ver um teatro engajado, então eu vou atrás”. Poderia ser diferente, poderia chegar pra todo mundo, se tivessem políticas de incentivo... Eu acho que é isso: o acesso. Mas é bom ressaltar que têm pessoas fazendo.



Tresor: Eu vejo que a mídia divulga mais mais entretenimento.


Da esquerda para a direita: Conrado Dess, Tresor Muteba, Ériko Carvalho e Elise Garcia. (Foto: Vitor Manon/Performatron)



Em uma época em que nós ouvimos falar bastante sobre indústria cultural, que as pessoas gostam de ir no cinema, gostam de shows de música... Vocês consideram que a sociedade dá a devida importância ao teatro? Como vocês visualizam essa realidade?



Conrado: Não sei se eu diria que a sociedade não dá importância. Não sei qual é a importância do teatro, na verdade. Mas eu sinto que deveria ser mais visto. Mas isso que você falou da indústria cultural,  é da formação do povo brasileiro e tem a ver com o acesso também, né? Porque sempre eu ouço as pessoas falando: “Ah, teatro é caro!”, mas o cinema é 25 reais o ingresso e as pessoas vão, comem pipoca... Tem vários filmes de Hollywood que são todos iguais. E você vai qualquer sexta-feira no cinema e está lotado... Sábado, domingo, todos os dias. As pessoas querem consumir cultura, mas elas são levadas a consumir essa cultura do entretenimento. Cultura hollywoodiana digamos assim. É uma questão de formação cultural. Eu acho que se uma mãe leva o filho ao teatro desde pequeno, é muito provável que esse filho cresça como uma pessoa que frequente teatro.



Elise: Ou até uma escola que leve esses alunos



Ériko: Dá um certo medo esse olhar do grande público para o teatro, porque muita gente que eu converso fala isso mesmo e fala: “Ah, mas teatro não é pra mim” e eu tento convencer do contrário, mas parece que já está enraizado essa ideia.



Conrado: Acho que o surgimento da televisão deu uma quebrada no teatro. Mas desde o teatro de revista, até surgir o teatro de comédia, até o teatro mais político e engajado (que surgiu na época da ditadura), sempre teve muito público. Em São Paulo tem muita peça em cartaz. Em muitos lugares têm muita peça de graça. Só que o público lá é sempre o mesmo. Por mais que a peça seja de graça e aconteça em vários lugares, a população ainda não tem acesso, de um modo geral.



Elise: Acho que é mais uma questão de divulgação, também.




Quais medidas imediatas vocês apontariam para mudar a realidade do teatro?



Conrado: Várias coisas podem ser feitas. Uma que estava começando a existir em São Paulo (e que está sendo cortada), é a política de fomento ao teatro. Porque esse teatro de pesquisa, mais politizado, não dá dinheiro público, né? O público é sempre muito baixo. Para fazer esse tipo de teatro, você tem que se dedicar muito. É o seu trabalho, você tem que receber um salário pra fazer isso. E poder pagar figurinos, cenários, pessoas que trabalham na equipe. Precisa de verba pra fazer isso. Então a verba pública para a arte e para a cultura é muito importante. E ainda existe muito pouco, e o pouco que existe está sendo cortado agora. Então é mais uma coisa que você vê que vai acabando mais com o teatro. Já é difícil quando tem um pouquinho disso, e quando é tirado, então, vai ficando cada vez mais difícil produzir as coisas.



Ériko: Quando existe, por exemplo, uma política que corta da grade ensino matérias que fazem as crianças pensarem, acaba com as chances de uma formação mais humana. Se não tem aula de filosofia, de história, como eles vão gostar de teatro? Acho que falta apresentar o teatro de uma maneira ampla com todos os potenciais que ele tem para oferecer. Você tira a oportunidade de jovens de aprender uma matéria que pode ser tão importante quanto a matemática, entende? Acho que isso já é um limitador.





O que os motiva a continuar no teatro mesmo com tantas dificuldades?




Tresor: A gente sabe que o que estamos fazendo é sério no sentido humano, o que também tem a ver com o jornalismo que você está fazendo. Você pode se formar e trabalhar numa coisa mais engajada, ou numa coisa mais comercial. Uma coisa comercial, provavelmente, vai te pagar melhor, mas é uma questão de consciência. Às vezes é difícil, mas você vai ganhar muito respeito por isso.



Elise: Eu acho que tem a ver com acreditar que a arte abre caminhos, portas, e  a mente. É o mais perto do sensível, do humano, sabe? Eu acho que através da arte a gente consegue resgatar essa sensibilidade que às vezes se perde. Por que a gente anda nesse mundo bem embrutecido, nesse nosso cotidiano louco ... Eu acho que a arte resgata muito a nossa essência mesmo, é algo muito primitivo, está muito dentro da gente. A dança, a arte, o comunicar-se.



Ériko: Quando a gente pisa no palco e entra na vida do teatro de verdade, se cria dentro da gente um fogo, uma chama, que só o teatro é capaz de alimentar. E quando você sai do teatro, isso se apaga. Quando a gente volta e faz o que tem de melhor para oferecer para o mundo, a nossa arte, essa chama se acende de novo.



Tresor: É o único instrumento que a gente sabe usar. A nossa arma é isso. Como a gente não pode lutar com as armas, bombas, a gente usa esse instrumento.



Elise: Eu acho que esse contato com o público é muito potente. Eu acho que transcende, a gente realmente vai para outro plano. É como se ali houvesse uma comunicação pra gente poder se entender, se resolver, pra gente poder repensar a humanidade, e também falar de amor e falar de coisas essenciais. Eu acredito muito nisso e acho que é isso que me mantém, acho que é o caminho para poder mudar as coisas. Ou pelo menos pra poder mudar aqui ao nosso redor, nossa família, nossa comunidade. 


(Foto: Arquivo pessoal)


Como é a reação do público à peça de vocês? 



Ériko: As pessoas se comovem bastante. As reações são diversas, na verdade. Tem as pessoas que não recebem a mensagem e que ficam incomodadas, mas no geral, eu acho que as pessoas recebem bem, se comovem e saem transformados...



Elise: Acho que as pessoas saem daqui pensando sobre, pelo menos. Eu acho que é legal por que a peça tem várias formas estéticas, vários modos de dizer o que a gente quer falar sobre o refugiado e o refúgio. Acho que durante a peça tem vários momentos que se você não se sentir tocado, pelo menos você está ouvindo uma informação que você vai acabar colhendo.



Tresor: Porque se constrói um estereótipo do refugiado de um cara que está chegando, fugitivo, magrinho e com problemas. Mas tem que pensar que seu tataravô, por exemplo, pode ter fugido da guerra também. Tentar entender que você também pode vir a ser um refugiado um dia. Na época da ditadura militar, tiveram vários brasileiros que também fugiram, se refugiaram, como o Paulo Freire, por exemplo. É uma situação que acontece. Você não quer ir, mas você é obrigado a fugir, se não você morre. A peça mostra isso. Eu estou fugindo se não eu vou morrer. Estou indo para um lugar que eu não sei aonde, eu vou pra ter a vida.


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*Entrevista realizada junto à disciplina Produção Jornalística: Técnicas de Reportagem e Entrevista, do curso de Comunicação Social - Jornalismo da Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (UNESP).





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