Entre os jornais e as nuvens

Jornaleira do aeroclube resiste com uma das últimas bancas de Bauru


Aos pés da estátua do bauruense que um dia ousou se tornar um astronauta para desbravar os lugares mais distantes, uma banca de jornal permanece firme e forte às raízes da cidade, há mais de duas décadas. Sentada sobre uma banqueta de ferro, ali se encontra a guardiã de um tesouro da “cidade sem limites”. Tão logo apareço com minha caneta, meu caderno e meu gravador em mãos, sou recebido por uma radiante saudação e um aperto de mãos.


A entrevista já havia sido marcada alguns dias antes, mas minha primeira impressão é a de que converso com uma amiga de longa data. A filha de dona Adelina, Ilda Viegas, 57, é uma das bauruenses mais conhecidas na cidade. Nasceu na mesma casa em que também viveu boa parte de sua vida na tradicional rua Bernardino de Campos. Com o apoio de alguns amigos, no final dos anos 1990 conseguiu um empréstimo para adquirir uma banca localizada próxima a um hipermercado na avenida Getúlio Vargas. Algum tempo depois, abriu a “Banca Aeroporto”, em frente ao icônico Aeroclube. Há cerca de cinco meses, no final de uma tarde de sexta-feira, ela baixou as portas de ferro da primeira unidade pela última vez.


O encerramento das atividades da revistaria reforça uma difícil tendência vista em Bauru ao longo dos últimos anos. Até este fechamento, contabilizei apenas sete unidades que ainda estão em funcionamento na cidade. A jornaleira é categórica ao afirmar que o fechamento se tornou a única resposta possível para a má fase nas vendas das bancas. “No ano passado aconteceu o que eu achava que iria demorar uns 10 anos. Todas as bancas foram quebrando”, lamenta. Ela conta que a mudança dos hábitos de leitura do impresso para o digital é um duro golpe para o seu negócio. “A turma só fica no celular, não lê mais nada, não vê mais nada. Só lê uma linha no jornal e fica por isso mesmo”, critica.

Um de seus amigos mais antigos, o bauruense Ângelo Requena já cuidou da banca durante a ausência de Ilda

Por um momento arrisquei dizer que a fase difícil parecia estar superada. Nossa conversa é dividida pelo entra-e-sai frenético de pessoas em busca dos famigerados cromos do álbum da Copa da Rússia. “Você precisava ver na primeira semana!”, comenta empolgada enquanto calcula o troco e passa o elástico nos pacotes que saem praticamente à toque de caixa. Mas ela me explica que é apenas impressão, e aponta para as máquinas de café, os snacks e outros utensílios à venda, que começam a ganhar espaço entre as prateleiras. Um investimento “para abrir o leque” e atender às mais variadas necessidades de quem passa por ali.


A labuta e a determinação de dona Ilda são diárias, em uma rotina bastante sacrificada. Essa história começou aos 16 anos, quando conseguiu o primeiro emprego com carteira assinada em uma fábrica de massas alimentícias em Bauru. Mais tarde, quando começou a trabalhar com bancas de jornal, passou a esticar a lida das 5:50 da manhã às 11 da noite, todos os dias. “As pessoas acham que é simples. Parece uma coisa fácil, mas não é. Mesmo para a outra banca, que fechou há cinco meses, eu ainda estou fazendo a lista de recolhimento”, em referência ao material não vendido que precisa ser organizado para a devolução ao distribuidor. Pesarosa, ela comenta que o agravamento da violência e alguns ataques urbanos a obrigaram a reduzir o horário de funcionamento. Hoje, quem precisa ir até a banca pode encontrá-la entre as 8:00 da manhã e as 5:00 da tarde.



Confesso que continuei um pouco contrariado a aceitar a realidade difícil que ela me contava. Quando não parávamos para que ela pudesse atender a um cliente, as buzinas e acenos da rua faziam suas vezes! Ao longo dos anos, as bancas de dona Ilda conquistaram algo além da clientela fiel: o cultivo de afeição e simpatia mútuos. “O atendimento é que manda, eu gosto de atender bem. Se eu estiver passando mal, eu prefiro baixar a porta do que atender o cliente de qualquer jeito”, conta com empolgação.



Curiosamente, um dos dias de maior movimento é o domingo, quando ela abre as portas para receber os clientes que já se tornaram seus amigos. São empresários, professores, jornalistas, pesquisadores, intelectuais de toda a região que não abrem mão de tomar um café, bater um papo e estar in loco comprando um jornal ou uma revista semanal na banca de dona Ilda. “Se não surgirem clientes bons como esse pessoal que eu tenho, eu acho que a banca acaba. Tanto é que o pessoal fala: ‘Vai descansar no domingo!’ Mas e se o cliente chegar e eu não estiver aqui? Até porque na realidade o pessoal vem pela amizade, porque eles gostam de ser atendidos por nós”, conta satisfeita.

As amizades de Ilda estão por todos os lugares. Dos pardais que avizinham a banca e são alimentados na porta do local, todos os dias, ao mais comum cidadão que estiver passando por ali. Ela se diverte ao contar algumas histórias curiosas, como quando um homem de bicicleta parou no local para perguntar o que havia acontecido no capítulo anterior de uma novela.



Vamos caminhando para o final da conversa com a certeza de que é impossível não identificar a alegria que a caracteriza. “Isso é uma banca: o dia-a-dia, os amigos. Às vezes, aparece uma pessoa que você nem conhece e de repente ela vem com um problema, apavorada, e do nada começa a falar. Você ouve a pessoa, conversa, e ela sai com o coração bem aliviado. Acho que é isso aí. Eu gosto do tête-à-tête”, arremata com um grande sorriso.
A jornaleira apelidou a banca como a sua "cadeia de portas abertas"

Sem que me desse conta, olho para o contador do gravador e vejo que quase uma hora de conversa já haviam se passado. Um tempo e uma oportunidade raras para um jornalista. Um espaço preenchido por muitas histórias, curiosidades, que logo me fizeram entender o sucesso da Banca Aeroporto, e, especialmente, de sua proprietária, apaixonada pelo que faz. Uma prosa digna de quem se conhece há muito tempo, e que sem dúvida alguma é a marca registrada dessa grande bauruense da Vila Falcão.


Caminhando para o final da conversa, resolvo perguntar o que a motiva a continuar trabalhando na banca. Ela dá uma risada de canto de boca, e conta a história de seus xodós: são quatro gatos e quatro cachorros, todos adotados na rua. Um deles, um “Jack Russel” que já lhe rendeu boas confusões e muitos estragos nos móveis de sua casa. Ela mostra a armação danificada do óculos, um presente feito pelo cãozinho arteiro. Também fazem parte da bicharada o poodle Téo, a Mel, a Bibi e a Maga. “Eu tenho bastante filhos para criar. Hoje eu coloquei 20 quilos de ração pros cachorros no carro!”, explica em tom de brincadeira. Para fechar a entrevista, eu não poderia deixar de usar um clássico dos entrevistadores: “E Ilda por Ilda?” Sempre bem-humorada, ela responde de imediato com um trocadilho: “Se não vir na Ilda, vem na volta!”, caindo na gargalhada.

*Escrito e publicado originalmente no jornal "Extra!", produção laboratorial dos estudantes de Comunicação Social - Jornalismo da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da UNESP, campus de Bauru.

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